O André, do Lendo.org, propôs que a gente escrevesse algumas linhas falando sobre um livro, um livro daqueles que marcaram nossa vida de alguma forma, mas principalmente, um livro que tenha trazido "felicidade".

Essa sensação de completude, de de realização íntima no mais pleno sentido da palavra, eu só encontro em Machado de Assis.

Fã de carteirinha do consagrado escritor, desde o colégio, já li muita coisa, mas ainda falta muito para ler.

Escritor profícuo, deixou sua marca indelével em todos os gêneros literários, mas para mim, maior significado existe em sua obra pela dinâmica da vida deste homem extraordinário.

Machado lutou contra o preconceito, era pobre, foi autodidata numa época em que não existia o google (falava 17 línguas, e pouco antes de morrer estava estudando grego), atravessou períodos difíceis e deixou um exemplo de luta incansável pela poesia, pela prosa, pela arte.

Escolher um único livro de Machado para comentar aqui se tornou uma tarefa quase impossível.

Desde os romances mais amenos, como Ressureição e A Mão e a Luva, até sua obra mais consagrada e marcante, Memórias Póstumas de Brás Cubas, tudo em Machado encanta.

Talvez haja um certo paradoxo no fato de que o livro que me trouxe mais felicidade até hoje tenha sido Memórias, de um humor quase negro, cheio de ironias, desencantos, mas ao mesmo tempo de um lirismo profundo. Mas foi um livro saboreado, curtido, envolvente o tempo todo.

Seu discípulo mais famoso, Carlos Drummond de Andrade, é meu poeta favorito. Tem lá uma certa lógica.

Vai saber? Cada um vivencia as páginas de um livro de maneira pessoal, única. São viagens, cordilheiras, rios que nos levam ao infinito do pensamento.

Já falei de Machado no blog, aqui.

E, para quem quiser baixar em pdf os romances do Machado, é só ir ao Domínio Público, e selecionar Machado de Assis.

Um pequeno trecho:

" CAPÍTULO LIV

A PÊNDULA

Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.
Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.

Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados. De certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou no peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram- se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva. "

Espero que tenham gostado, que leiam muito Machado de Assis. Nenhum outro escritor é tão atual, de uma inteligência tão aguçada e ao mesmo tempo tão espirituoso quanto ele. Boa leitura!!

Ah, dá para comprar o livro no site da Americanas.com por (acredite se quiser) R$ 8,49!!!! Você não tem mais desculpa para não ler...

"A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela sobem os pensamentos aos céus, por ela descem as divinas consolações." Machado de Assis
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